sábado, 12 de julho de 2014

Já andei de bermuda

Já fui mal visto, pela forma como me vestia. Hoje, tive que começar a aprender a me vestir, para ser visto como eu mesmo me via, ou talvez como eu gostaria de ser visto. Não que eu ainda saiba me vestir, mas acho que já me viro melhor, e sou mais bem visto.  Não que eu precise disso ou daquilo para ser. Não que eu seja o que eu vejo em mim, o que projeto, ou o que qualquer um possa ver e projetar. Sou apenas um projeto, ao vento, tentando manter o rumo em um mundo onde o caos é a única lógica que não submerge a nada além de si mesmo.

Sim, o mundo é esse, e é assim que as pessoas são. Sociedade do espetáculo, insaciedade da imagem, do culto à aparência, à superfície. O belo como fuga da morte, do horrendo, do finito. Nas profundezas, apenas os traumas, as lembranças e as realidades que tanto nos esforçamos pra calar. Logo eles, que nos explicam e que tanto queremos ignorar. Logo eles, que nos espreitam e ameaçam invadir o espelho e quebrá-lo. Eles, que nos acordam à noite, e para o qual desenvolvemos remédios e subterfúgios placêbicos para nos reequilibrar.

Equilíbrio. Controle. Ilusões. Assim como qualquer imagem, qualquer visão, totalmente vulnerável ao que está por trás das lentes, por trás das mentes. Ilusão, na terra do caos, é a única certeza que, certamente, não nos mente. É o conjunto união e a interseção. Ilusão é a única realidade plausível.

Olha, mas diante disso tudo, tudo o que eu quero é sobreviver o mais são possível. Sinto, claro, que quanto mais insano, mais são. E quanto mais saudável, mas não somos o que querem que sejamos. E mais eles não são. Sanitarizados em formulários de boas práticas e governança corporativa robótica parametrizada para que sejamos funcionais. Óbvio, não basta funcionar. Tem de parecer que funciona.

Então é isso. Cabeça no lugar. Imagem certa. Seguir regras. Em alguma brecha, buscar algo mais, sem ferir demais os demais e arrombar a rachadura. Na cara dura, tentar ser e parecer, e, se der tempo e for possível, até viver.    

Já andei de bermuda. Já andei de calça jeans. Já andei de camisa social. Hoje, ando de blazer. Mas ainda sonho, e ainda quero andar com uma guitarra e um violão. Caneta e papel na mão. E assim, trilhar meu caminho na vida, até o ponto onde meu andar for manso, de short e camiseta, lembrando de todas as roupas que usei, das estradas que percorri, das delícias que vivi, das dores que senti, dos amores que amei. Lembrar de tudo o que sei, e do que fui e sonhei, do que sou e ainda serei, até que o tempo me sopre as memórias de volta ao caos.

Caos, meu lar doce lar. Sem a ilusão da visão. Sem ser visto. 

Lembrado, talvez. Por como me vestia. Por como era visto. Espero que, também, por quem me importava e pelo que importava. E nisso, invisto. Insisto em não perder de vista. 


Hasta la vista.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Breve

Hoje eu sinto.
Quanta falta sinto de sentir sua falta.
Ela, que já foi tão presente.
Me fez companhia.
Me fez acreditar.
Me dava um dormir esperançoso, e um acordar aflito.
Oras, se invertia.
Mas sempre ali.
Noite e dia.

Mas hoje, nem isso restou.
Sim, fragmentos. Mas não me permito.
Pois, se antes era apenas uma ilusão,
agora, a certeza quase gritante,
ou a quase certeza que grita,
diz que sonhei à toa.

Não, à toa não foi.
Fui o que poderia ser de melhor.
Mas não era.
Não seria.
Talvez, nunca.

Mas sonhei. E vi que, ao sentir, estava vivo.

Vivo.

Hoje, vou dormir com a saudade.
Em tom de despedida.

Até que a realidade nos separe.
Ou nos prepare para o que vier.

O que vier?

Sim...

Que seja não. Que não seja.

Apenas, que se for, que seja algo digno de se sentir falta.

Seja o que for.

"Se for pra sempre, seja breve. Seja firme. Seja leve. Seja bravo. Seja breve.

Se for pra sempre..."

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Lighter

For a long time, i've carried a weight that isn't mine.

For long, I wasn't me all the time.

In the meantime of what was important then, i've lost myself of what will always be.

What will always be me.

In me, i've played, for a long time, a different part.

Part of me wanted it to be. Other, just wanted to believe.

But after all, I just wanted to be apart of it all. To see it comes down like a waterfall.

And that's all.

But now, all i know is that I'm gonna be ok.

No matter of where I am, I shall be my place.

I'll leave whatever weights and will not be needed. I'll only backpack songs and good memories. Maybe, a bit of scars on my skin, and some lessions in my mind, but just about necessary enough.

Enough.

I'm taking away all the weight of my heart and soul.

Whatever it comes to harm, will be transformed in harmony.

Whatever it comes to bitter, it will be sweetened.

Whatever it comes to dark, will be enlighted.

Light.

From and towards the light.

Lighter.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Me pego pensando

Me pego pensando.

Me pego pensando sobre o que me pegou em você.

O que você pensou, e se te pegou.

O que pega que você ainda não se pegou em mim.

Simples assim.

Nada é simples assim, eu sei.

Mas e se...

E se eu sinto por você o que gostaria que você sentisse por mim?

E sinto, por você, o que gostaria que você sentisse por mim?

E você, será que também sente assim?

Oras, acredito que sim. Noutras, acredito apenas em acreditar.  

Ora bolas. Não sei o que deveria saber.

Parece tão claro. Tantos sinais. Tantas direções.

O que sei é o que temos, quando juntos.

Quando a gente se pega. Pensa. Simples. Sente. Acredita. Sabe. Tanto. Juntos.

O que escrevo, o que leio, o que deduzo, é caos.

O que sinto...

Ah, o que sinto...

Enfim.

Não sei se quero saber o que me pegou em você.

Só sei que me pegou. De jeito.

E agora, o que me resta...?

Me pego pensando...







sábado, 1 de março de 2014

Beijo

Santos e demônios dançam na minha cabeca
Me confundem. Se confundem em mim.
Vontades, virtudes, vertigens.
Vestígios do passado e do futuro, presentes na expectativa de um beijo.
Dado. Ainda não dado.
Mas dou, conformado, corda para acordar dentro de um sonho.
De sensações. Preso em liberdades seletivas.
Liberdade, por mim escolhida. Definida.
Defendida como ideologia. Ideia perdida sem ideal.
Mas o ideal é que seja apenas um beijo.
E o beijo, apenas o começo.
Do que?

Que seja são. Ou não.
Apenas que não seja em vão.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Um evento

Em uma mesa, o Passado, o Presente e o Futuro. Todos com semblante preocupado. Um silêncio sepulcral. Olhares se cruzam, como se quisessem falar. Mas tudo se entendia sem dizer.

Não havia o que dizer.

Os três estavam amarrados à este evento.

O nó que une três cordas. O cruzamento de rios bravios. Correnteza de águas, detritos e sedimentos.

Um único sentimento, no choque dos caminhos.

Tortuosa conjectura de acontecimentos.

Da colisão, a dor.

Da dor, a resposta.

Da resposta, uma conclusão.

Nada mais será igual.

Foi.

É.

Será.

Deste instante, tudo é o novo. Inclusive o velho.

No espelho, os olhos captam o que não escapa.

De resto, foi-se.

Morrem possibilidades, surge a estrada de pedra.

Mas há uma curva adiante.

Ao quer parece, uma bifurcação.

Qual será o caminho?

Os três se olham, e se levantam. Cada um segue sua direção. Mudados por este encontro.

Perguntas...

Respostas em ampulhetas imperfeitas.

Nas mãos do Senhor da Poeira, se vão as três figuras.

Em passos errantes...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Finito


...e então, ele parou diante do espelho.
Olhou fundo em seus olhos.
Uma sensação de tristeza, uma leveza melancólica.
Cada detalhe começou a gritar.
A olheira, cuspindo noites mal dormidas.
Manchas de verões e furacões, de sol e de chuva.
Rugas de causos e causas diversas.
Prós e contras do advento adverso da vida.
Vida que fere e é ferida.
E graças à Deus, não cicatriza.

Se não há dor nem ausência, nunca houve presença.
Nunca houve o amor.
Nunca haverá a saudade.

Ele pensou, então, em seu bolso furado.
Tostões ricos em histórias.
Aventuras de hoje, perrengues de outrora.
Patrimonio simbólico da aristocracia factual da memória.
Da cabeça que distorce e, romântica, se embriaga.
E vê o que não houve.
Pra bem ou pro mal.

Não faz mal.
Viveu-se.
Em cada marca do tempo.
A barriga existe, cheia de si e de tanta coisa.
Não se é tão jovem.
Falta menos do que faltava. Tende a piorar.

Podia ser trágico, ou cômico.
Mas não é.
É a beleza de tudo que é finito.
Nunca será pleno.
Completo.
E, por aí, poderia ter sido sempre mais.
Conflito sem fim com o final.

Portanto, ele continuou olhando.
Percebeu que este momento não passou de um segundo.
Horas, dias em sua cabeça.
Anos em sua carne.
Breves instantes de reflexão.

Percebeu.

Finitude é algo que se aceita.
O possível e o impossível se distanciam apenas pelos fatos.
Azar dos fatos.
Ele quer o novo.
Mesmo velho.
Mesmo de novo.

Abriu um sorriso e deixou o espelho.
E o espelho e tudo o que ele viu em um segundo foi consigo.
Seguiu caminhando.
Para onde, não sei. Nem ele.

Mas ele vai chegar.

Ah, se vai...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Por que?



Você não vê a causa, cego pelas consequências.
Mas sente.
Uma sensação esquisita, de que há algo errado.
Você pode quase tocar, localizar, descrever.
Mas não consegue explicar.

Entendo você.
Também sei o que é isso.
Não saber o que é isso.
E repetir a fórmula errada.
De Natal em Natal.
Pulando um Carnaval sem música.
Uma folia sem reis, a realeza surreal,
Da realidade sem graça do deserto ideal.

Somos pó e sujeira, frutos de um acaso histriônico.
Estamos surdos e mudos pelo espaço-tempo.
A misericórdia do imponderável nos põe de pé,
E a lógica nos atordoa.
Precisamos fugir.

Drogas em forma de pessoas, goles de ingratidão,
Personalissimamente vãos.
Entorpecidos pela completa ausência de qualquer coisa que o valha.
Nada tem valor, nada tem sabor.
Gordos de nós mesmos.

Eu não sei explicar, mas sinto.

Por que?

Me pergunto, receoso de saber. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Crônicas sobre o Fim dos Tempos - Parte 1

Olá.

Você pode não gostar do que eu vou escrever. Não terá finais felizes nem lições de moral. Não te fará se sentir melhor, provavelmente será o contrário. Talvez te faça pensar. No que? Só a soma das suas experiências com as minhas palavras vai dizer.

Para mim, o que eu escrevo, é uma forma de sobreviver à este mundo maluco e sem propósito no qual vivemos. Não me surpreendo se este realmente for o fim dos tempos.

Lidemos com os fatos: o mundo que construímos não nos levou a lugar algum.

Duvido que sejamos mais felizes que nossos primos primitivos. Duvido que eles soubessem o que é felicidade, e este conceito maldito os atordoasse cada vez que fossem confrontados com a realidade.

Realidade? Não há lógica, justiça ou positividade alguma. Só há casualidade. Causa e efeito. Caos.

Somos filhos das moléculas errantes que somos. Acidentes químicos, acaso de raios e fusões em uma atmosfera efervescente e morta. Somos eternamente fadados à perdição. Rumamos triunfantes em direção à entropia. O tudo que precede o nada. O nada que sempre foi tudo o que é real.

Somos a resultante de uma equação irrelevante.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

(Um pouco de) Tempo



A gente usa o Tempo, pra ganhar tempo, pra comprar coisas, pra perder tempo
com entretenimento, um advento, pra fazer o tempo, a seu contento, 
virar contentamento, um passatempo, um ganha tempo, pra parecer 
que não perdemos tempo, pensando a vida, passando a vida, vivendo o tempo, 
pra viver correndo, do seu passado, do seu presente, do seu futuro, a todo tempo
passado o tempo, a esperar, a procurar, a aspirar, um pouco mais de tempo.   
Que nos define, na finitude, da amplitude, do que existe
Do que é real, é o que vemos, o que sentimos, o que seguimos
Como natural, é ter começo, é ter um fim, é ter enfim,
Um final pro tempo

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Difícil entender

Uma amiga de longa data, de muito ontem, me perguntou: cadê seu blog?

Respondi, meio que sem pensar:

"Parado.
Na esquina do nada com coisa nenhuma.
Com minha cabeça maquinando Marketing e derretendo Fluminense.
Tô retomando agora, pela minha sanidade.
Comprei minha guitarra dos sonhos, e acho que ela reabriu meu cérebro.

Hoje.

Agora."

Ela mandou eu postar este desabafo, e tá aqui. Postei.

Blog reativado. Isso tudo, insone, com minha guitarra na mão, enquanto escrevia depois de muito tempo algumas estrofes.

E estas, fluíam...que saudade desta sensação!
Depois de tanta sombra, uma música e uma postagem. Pra quebrar o gelo.
Espero que o canal fique aberto. 

Aproveito o ensejo, e batizo de vez a minha guitarra, quase certeza que agora é certo, tanto o nome como ela. Sonho em mãos.

 Êi-la, Edwin Gallagher I.

Minha Epiphone. Minha épica ponte para a inspiração, novamente.







Voltemos à música agora.



 Até.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Rio

Minha alma canta...
Tem dias, que ela pranta,
Mas a gente se levanta.

Minha cidade, minhas praias, minhas gatas, meus malandros.
Minhas mazelas, meus bandidos, minhas milícias e políticos.
Sou eterno turista, síndico e residente do purgatório da beleza e do caos.

Vivo na zona...
Portuária, Norte Sul Oeste Cardeal.
Engarrafado do Leme ao Pontal.

Verão, ah o verão!
Vocês ainda hão de me ver brilhar no exterior.
Jogo bola e sou Olimpo, sim senhor.

Sou Carioca e Fluminense, mas há Fla, Vasco, Fogo e o Mequinha.
A bola é minha, sempre foi.
Todo o país reconhece. Menos lá, você sabe...

Mas eles vem pra cá, e se apaixonam.
Todos os sotaques, moedas, manias, etnias.
Cada canto tem um encanto pra você.

A cidade maravilhosa te convida...e aprisiona.
Não há como se livrar, não há como esquecer.
Guanabara, tudo por você!

E se mistura tudo, se reinventa.
O da gema e o cigano se alimentam dos Orixás.
E pegam onda, tiram onda, seguem a onda da estação.

Seja primavera ou verão.

"Ah, vocês verão!

Ainda deixo de ser cartão postal e viro cidade-modelo...

Ou já sou?"

De certo, és o tempero de todo um país.
Recanto encantado entre a serra e o mar.

Se Deus é Brasileiro, o Papa é Carioca.

E o capeta só não veio porque tá caro moral na Zona Sul.
Mas frequenta a Lapa, o BG, toma chopp no Leblon.
Vem, usa, e vai embora.

Mas, deixa estar.

Parabéns, São Sebastião do bendito Rio, do bendito mês.
Cada vez melhor, mesmo respirando o caos nosso de cada dia.
Prazer e agonia.

Ah, mas vocês verão...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Abram Alas!

Ah, o Carmaval!

Festa da carne, na perdição, predileção de 9 em cada 10 brasileiros...

A mais brasileira das tradições.

Para mim, sempre uma data de reflexão.

Muitas vezes, forçada, noutras, por escolha. Mas meus Carnavais sempre são um tanto diferentes.

Eu sei, já entendi o recado, e não insisto. A festa não é pra mim.

Já reclamei, não reclamo mais.

Achei minha paz no meio dos foliões.

Não desgosto nem desmereço quem goste.

Só não compartilho.

Tirei o deste ano para relaxar, me encontrar no encontro com o recanto verde e calmo.

Desacelerar no período onde todo o resto parece querer explodir.

A ebulição efervescente das peles douradas, aceleradas pela libido festiva, celebrando a vida e sua justa e maior recompensa.

Pra mim, o prêmio é outro.

No silêncio de boas companhias, me encontro acompanhado por um sentimento de busca e perda, diferente dos confetes e serpentinas e beijos e danças.

Busco me perder novamente em mim mesmo, e assim me reencontrar.

É, amigos, dentre tantas diferenças entre o meu e o seu Carnaval, há de se achar semelhanças.

Meu ano também só vai começar depois da quarta-feira de cinzas.

O reencontro com o doce sabor do recomeço.

Abram alas!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Palavras

Palavras.

Talvez, minhas melhores amigas. No mínimo, as mais antigas.

Sempre nos tratamos muito bem.

Quando preciso, elas aparecem. E tento expô-las com carinho, com trato.

Mas ando em falta com elas.

Não por desonestidade, mudez ou falta de exercício.

Afinal, no trabalho, elas são corriqueiras. Veículo importante das ações.

Mundanas e necessárias.

Estou em falta é com o escrever, o criar, o reordenar palavras.

Em falta, e sentindo muita falta.

Talvez, a ferramenta com a qual mais me identifico.

A maneira como me defino.

Palavras. Falado, dito, pensado.

Saudade da liberdade de brincar com elas.

Mesmo quando o fazia por ofício, era, de certa forma, lúdico.

Mas deixei esta faceta profissional de lado, ao menos por enquanto.

A hora é de realizar, progredir, aprender.

Evoluir.

Se tem uma palavra que resume este pouco mais de ano sem escrever, é MISSÃO.

Vivo na plenitude das minhas forças o que considero uma missão de vida.

Sem esquecer a sensação e a certeza de que, se houve, há e haverá alguma missão, de fato, para a minha vida, esta sempre envolverá uma coisa:

PALAVRA.

Em todos os sentidos.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Saudade de escrever por escrever...

Saudações,

AMV

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Loucura

Olhei nos olhos da loucura e vi você.
Despido de seu animal, trajando um comportamento sociável de alta costura.
Atitudes engomadas e palavras de manga comprida.
Consciência passada a ferro, com todo o esmero.
Cabeça no travesseiro e dinheiro na conta, tudo normal.
Mas...
uma voz rompe o sossego.
Aquele sino não para de tocar.
Um grunido.
O sono embebido de suor te acorda, e se vai.
A cama machuca as costas.
Trêmulas pernas te levantam, mas não te sustentam.
Cambaleante, o banheiro se aproxima.
Antes do choque, um baque.
Pausa.
Você olhou no espelho e viu a loucura nos olhos.
E caiu.

Olhei nos olhos da loucura e me vi.
Rindo do sangue que varre as ruas,
jorrando das urnas,
torcendo para o tiro acertar a cabeça do bandido.
Qual bandido?
De um lado, a arma da fome.
Do outro, a fome como arma.
No meio, eu e você.
E uma bala.
Quem está perdido?
A justiça clama pela cidade.
O Rio se tranca em casa com medo do povo.
As ruas faltam o trabalho e a escola, esvaziando as pessoas.
A segurança pública defende a tese de que o prefeito é prioridade.
Está decidido?
O banho de balas à cada cartucho de lama se esvai com o bueiro pelo sangue das manchetes do ostracismo de amanhã.

Com as mãos sujas, olhei nos olhos da loucura e vi a sanidade.
Perplexa com todo esse caos.
Segurando uma arma.
Um corpo extendido no chão.
Homens correndo mata adentro.
Eu estou dentro ou fora?
E eles?
As lentes recortam a realidade em sanduíches de audiência.
Eu estou com fome.
A sanidade me olhou nos olhos e me saciou com um beijo de boa noite.

Mas eu acordo. Um dia, acordo.
Me levanto e vou para o espelho.
Cadê você?
Olhei, à procura da loucura, e não a encontro.
Mas ela está aqui, a espreita.
Eu posso senti-la correndo pelos meus dedos,
formigando meus pés,
saindo pela minha boca.
Contida nas contingências do cotidiano.
Enclausurada num corpo.
Numa casa. Numa tarefa. Num grupo.
Numa cidade.
Numa idade, sem nenhuma identidade com a realidade.
Esfacelada na parede, com seus miolos espalhados na decoração.

Olhei nos olhos da loucura e vi o amor.
Fantasiando sabores e comendo mobília.
Endividados pela carne, pagando promissórias fatias de indiferença.
Na boca, o gosto amargo do feliz para sempre,
perdido nas papilas gustativas da desilusão.
Um objeto necessário, refém de projeções,
utilitário na busca das respostas que sabemos não existir.
Mas dormimos abraçadinhos e juramos que desta vez é.
Talvez seja, quem sabe?
Apago em meio ao sonho do verdadeiro.
O amor me olhou nos olhos e me ignorou.

Mas te peguei pelo braço.
Preciso do teu sexo.
Minhas baterias estão fracas, e meu hálito, quente.
Tenho sede do teu orgasmo refrescando meu ego,
teu olhar de tesão me adulando,
enquanto finjo que gozo e olho no relógio.
Eu trabalho amanhã, me desculpe.
Tá na hora de ir embora.
Beijos!
Chego em casa e me sinto só.
Durmo no vazio do seu cheiro.

Mãe, suplico pelo teu perdão e teu carinho!
Pai, me dê a mão e me guie pela escuridão!
Tenho medo do clarão da janela!

Acordo e acendo a luz.
Na cabeceira, uma bíblia e uma arma.
Nas mãos, um copo d'água.
Um gole, um versículo, uma bala.
Olhei nos olhos da loucura e vi a salvação.

Um gole, um versículo, uma bala.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Esquina

Atravessei a rua e segui adiante.
Não dava mais para olhar para trás.
Na mesma velocidade em que o norte me chamou, veio o leste e mudou o cenário.
Quando parei para pensar, e ver, não estava mais lá. Restou apenas a sombra do último passo antes de sumir por entre os prédios.
Dinâmica, esta realidade.
Dinâmica e dura.
Na incerteza da busca, perdida entre passado e futuro, o presente sofre com a ausência.
Vácuo entre o outrora deslocado e o imponderável por vir.
A angústia antes do sono agora se espalha por entre meus dedos, contaminando tudo o que toco.
Desperto e disperso.
Acordado em desacordo.

Sigo adiante. Uma avenida se avizinha em minha vista.
Mais uma dura esquina a se cruzar.
Encruzilhada entre dois caminhos levemente opostos e igualmente satisfatórios.
A dor da perda é certa. Talvez a da vitória, também.
O conforto desolador de olhar para trás e se arrepender tá logo alí.
A ilusão do controle e de alguma previsibilidade, também.
Estarei eu no comando?
Sem certeza na escolha, certo mesmo é ter de escolher.

Adiante, além da esquina, nos dois lados deste cruzamento, há de tudo o que não posso enxergar com os olhos.
Deixo o coração como guia e atravesso o pavimento.
A cada passo, o presente se dilui na quilometragem e o passado vira a presença pesada e pesarosa do que não houve ou não haverá mais.
Sempre vai ser assim.
Sempre.
Parece fácil, parece difícil, mas é apenas uma constatação lógica:
as inevitáveis escolhas nos levam e deixam o rastro da destruição.
Darwinismo ou destino?
Depende de onde se posiciona o espectador.
Na lente do fotógrafo, um frame transitório, perdido no espaço-tempo.
Nas letras, o devaneio ansioso e redundante de quem não quer escolher, mas sabe que, parado, não vai dar para ficar.
E vai atravessar para um dos lados.

E lá na frente, o que este novo caminho me reserva?

Nada além de duas ruas com uma esquina no meio...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pulsão de vida

Pai abusivo e mãe depressiva.
Pai preguiçoso e mãe alcoólatra.
Pai ausente e mãe permissiva.
Pai adúltero e mãe controladora.
Pai agressivo e mãe passiva.
Pai destrutivo, mãe reclusa.
Pais divorciados, morou com a mãe.
Pais divorciados, morou com o pai.
Pais divorciados, morou com algum outro parente.
Pais divorciados, viveu em mudança.
Órfão de pai, mãe enérgica.
Órfão de mãe, pai negligente.
Órfão de pai e mãe.
Filho adotivo. Sabido ou descoberto com o tempo.
Criado pelos avós.
Criado pelos tios.
Criado por institutos, instituições e instituídos.
Criados pela rua.

Cruzes de berço, de casa, de sangue.
Deus e o Amor na ausência e na presença.
A primeira crença, a primeira noção de sociedade.
A primeira dor. A dor fundamental.
O fantasma e a cruz.
A eterna sombra sobre nossos ombros.

Abandono.

Sim, estamos sós, eu e você. Todos nós.
Lutando contra nós mesmos, nosso passado que vai e volta.
E nós o repetimos.

E nos tornamos pais e mães.

Ninguém é vítima. Ninguém tem culpa.
E todos temos muita. Tanto como pais quanto como filhos.

Somos a interseção entre dois acidentes, e um acidente em si.

Magia da criação.

A dor que impulsiona o belo e alimenta o monstro. Tudo ao mesmo tempo.

Vida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Samba do Avião de Buenos Aires

Domingo, 9 de maio de 2010. Avenida Gallo (esquina com Av. Còrdoba) 955, 21° andar, apartamento 1, Recoleta/ Barrio Norte - Buenos Aires. Era de manhã. Em poucas horas, eu embarcaria de volta pra casa. Peguei a última garrafa de vinho que sobrara, sentei na varanda do apê e senti uma doce tristeza. Doce pela nova paixão, triste por deixá-la. Decidi escrevê-la.

Ah, Buenos Aires!

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Não, não estou no avião. Não ainda. Muito menos isso é um samba.
Mas dói te deixar, Buenos Aires!
Minha alma cantou desde a primeira vista. E já estou morrendo de saudades.

Das tuas ruas ruidosas, pero no mucho.
De sus Calles Floridas, abundantes em cores.
Varandas que se debruçam em ruas estreitas, te convidando para entrar e tomar um vinho.
Caminhos traçados em passos fortes, dramáticos como num tango pulsante nas veias asfaltadas da cidade-corazón.

Buenos Aires de lua térrea, que deixa o céu azul-rosado no fim de tarde para beijar el Río de la Plata.
De um ar incrivelmente puro e gostoso de respirar, mesmo sendo uma metrópole.
Talvez por ser uma grande capital da cultura.

Onde mendigos recitam García Márquez e taxistas discutem música erudita.
A arte é uma filosofia de vida. Uma obrigação porteña.
O argentino respira arte, mas, na bola, é a arte da guerra.
Com sangue gaúcho e espírito indígena, ele não joga - ele luta.
Assim como pinta, canta e escreve.
É um povo que esbraveja!

E, talvez, por isso, me diga tanto. Berra o que minha boca silencia.
Palermo, Recoleta, San Telmo, Puerto Madero.
Boca, Caminito, Plaza de Mayo. Xeneize, Millionário. Milongueiro.
Porteño.
Esse não samba é só por que; Buenos, gosto de você; a galega vai passar; e como um tango, me rasgar!

Estou apaixonado por você, Buenos Aires!

Palavras de um cariôca muy borracho!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Analgesia

Tudo friamente calculado.
Métrico e metódico.
A tensão gélida em rostos pálidos,
ávidos por sentir algo além de suas obrigações.
As aspirações esvairindo-se em transpiração.
Sonhos arquivados e usados somente para anestesiar.
E uma cerveja para reconfortar o dia.

Ratos em rodas, enfileirados,
girando o moinho do tempo em eterno pique no lugar.
Vendo a vida correr sem novidades.
O cumprimento da profecia autorrealizável da monotonia.
Desejos? De consumo.
Tudo em código de barras.
Prateleiras de amores e abraços e apertos de mão analgésicos.
Ressaca de viver de mãos atadas.

A farsa da impressão do equilíbrio,
sentada em um gigantesco barril de pólvora.
Você sabe. Eu sei.
Mas siga na sua que eu fico na minha.
Até a fagulha derradeira.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sozinho

7h da manhã, sozinho na redação.
Imagino o mundo sem mais ninguém.
Enfadonho!
Tudo perde o sentido.
Sempre estamos entre uns e outros.
Pegando de cá e levando pra lá.
Ir e vir de coisas, informações, carinhos, decepções.
Elos de ligação de uma corrente invisível.

Corrente esta cheia de pontos fracos,
de falhas incorrigíveis,
mas que se mantém firme, conectada e funcional.
Cordeirinhos, mesmo os mais rebeldes.
Não tem jeito.
Estamos presos um no outro, neste jogo cármico.
Mas quem move as peças?

O livre arbítrio?
A mão de Adam Smith?
O vento do vazio infinito budista?
A determinação de um Deus onipresente e controlador?
A ciência e quem a controla?
Ectoplasmaticamente envoltos?

Não sei.
Só me sinto ligado à você mais do que nunca.
Preso nesta massa amorfa de coisas táteis e invisíveis.
Estamos no mesmo barco, e ele está afundando.

São 7h42 e ainda estou sozinho na redação.

Sozinho?

Não creio.