quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pulsão de vida

Pai abusivo e mãe depressiva.
Pai preguiçoso e mãe alcoólatra.
Pai ausente e mãe permissiva.
Pai adúltero e mãe controladora.
Pai agressivo e mãe passiva.
Pai destrutivo, mãe reclusa.
Pais divorciados, morou com a mãe.
Pais divorciados, morou com o pai.
Pais divorciados, morou com algum outro parente.
Pais divorciados, viveu em mudança.
Órfão de pai, mãe enérgica.
Órfão de mãe, pai negligente.
Órfão de pai e mãe.
Filho adotivo. Sabido ou descoberto com o tempo.
Criado pelos avós.
Criado pelos tios.
Criado por institutos, instituições e instituídos.
Criados pela rua.

Cruzes de berço, de casa, de sangue.
Deus e o Amor na ausência e na presença.
A primeira crença, a primeira noção de sociedade.
A primeira dor. A dor fundamental.
O fantasma e a cruz.
A eterna sombra sobre nossos ombros.

Abandono.

Sim, estamos sós, eu e você. Todos nós.
Lutando contra nós mesmos, nosso passado que vai e volta.
E nós o repetimos.

E nos tornamos pais e mães.

Ninguém é vítima. Ninguém tem culpa.
E todos temos muita. Tanto como pais quanto como filhos.

Somos a interseção entre dois acidentes, e um acidente em si.

Magia da criação.

A dor que impulsiona o belo e alimenta o monstro. Tudo ao mesmo tempo.

Vida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Samba do Avião de Buenos Aires

Domingo, 9 de maio de 2010. Avenida Gallo (esquina com Av. Còrdoba) 955, 21° andar, apartamento 1, Recoleta/ Barrio Norte - Buenos Aires. Era de manhã. Em poucas horas, eu embarcaria de volta pra casa. Peguei a última garrafa de vinho que sobrara, sentei na varanda do apê e senti uma doce tristeza. Doce pela nova paixão, triste por deixá-la. Decidi escrevê-la.

Ah, Buenos Aires!

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Não, não estou no avião. Não ainda. Muito menos isso é um samba.
Mas dói te deixar, Buenos Aires!
Minha alma cantou desde a primeira vista. E já estou morrendo de saudades.

Das tuas ruas ruidosas, pero no mucho.
De sus Calles Floridas, abundantes em cores.
Varandas que se debruçam em ruas estreitas, te convidando para entrar e tomar um vinho.
Caminhos traçados em passos fortes, dramáticos como num tango pulsante nas veias asfaltadas da cidade-corazón.

Buenos Aires de lua térrea, que deixa o céu azul-rosado no fim de tarde para beijar el Río de la Plata.
De um ar incrivelmente puro e gostoso de respirar, mesmo sendo uma metrópole.
Talvez por ser uma grande capital da cultura.

Onde mendigos recitam García Márquez e taxistas discutem música erudita.
A arte é uma filosofia de vida. Uma obrigação porteña.
O argentino respira arte, mas, na bola, é a arte da guerra.
Com sangue gaúcho e espírito indígena, ele não joga - ele luta.
Assim como pinta, canta e escreve.
É um povo que esbraveja!

E, talvez, por isso, me diga tanto. Berra o que minha boca silencia.
Palermo, Recoleta, San Telmo, Puerto Madero.
Boca, Caminito, Plaza de Mayo. Xeneize, Millionário. Milongueiro.
Porteño.
Esse não samba é só por que; Buenos, gosto de você; a galega vai passar; e como um tango, me rasgar!

Estou apaixonado por você, Buenos Aires!

Palavras de um cariôca muy borracho!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Analgesia

Tudo friamente calculado.
Métrico e metódico.
A tensão gélida em rostos pálidos,
ávidos por sentir algo além de suas obrigações.
As aspirações esvairindo-se em transpiração.
Sonhos arquivados e usados somente para anestesiar.
E uma cerveja para reconfortar o dia.

Ratos em rodas, enfileirados,
girando o moinho do tempo em eterno pique no lugar.
Vendo a vida correr sem novidades.
O cumprimento da profecia autorrealizável da monotonia.
Desejos? De consumo.
Tudo em código de barras.
Prateleiras de amores e abraços e apertos de mão analgésicos.
Ressaca de viver de mãos atadas.

A farsa da impressão do equilíbrio,
sentada em um gigantesco barril de pólvora.
Você sabe. Eu sei.
Mas siga na sua que eu fico na minha.
Até a fagulha derradeira.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sozinho

7h da manhã, sozinho na redação.
Imagino o mundo sem mais ninguém.
Enfadonho!
Tudo perde o sentido.
Sempre estamos entre uns e outros.
Pegando de cá e levando pra lá.
Ir e vir de coisas, informações, carinhos, decepções.
Elos de ligação de uma corrente invisível.

Corrente esta cheia de pontos fracos,
de falhas incorrigíveis,
mas que se mantém firme, conectada e funcional.
Cordeirinhos, mesmo os mais rebeldes.
Não tem jeito.
Estamos presos um no outro, neste jogo cármico.
Mas quem move as peças?

O livre arbítrio?
A mão de Adam Smith?
O vento do vazio infinito budista?
A determinação de um Deus onipresente e controlador?
A ciência e quem a controla?
Ectoplasmaticamente envoltos?

Não sei.
Só me sinto ligado à você mais do que nunca.
Preso nesta massa amorfa de coisas táteis e invisíveis.
Estamos no mesmo barco, e ele está afundando.

São 7h42 e ainda estou sozinho na redação.

Sozinho?

Não creio.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tanto faz

Tanto faz acordar ou dormir
O chão já não sustenta minha leveza
As ruas estão vazias, assim como todos nós,
cheios de ódio gasoso nos pulmões,
esperando o próximo mês para pagarmos pelo que não fizemos.

Tanto faz ter alguém ou ficar só
se estamos sempre sozinhos,
ou, no máximo, mal acompanhados.
Abandonados por nós mesmos na porta de casa
sem beijo de boa noite nem um convite para entrar.

Tanto faz você me dizer a verdade,
se seu corpo e suas atitudes mentem.
você já não sabe o que é ou não é real
e, na realidade, até você pode ser mentira,
dado o meu ceticismo quanto à essas coisas.

Então, tanto faz se a história é bonita,
se, no final, tudo vai dar certo.
O que importa é sempre o prêmio,
o pote de ouro no fim do arco-íris,
a fantasia recompensadora.

Tanto faz se a foto ficou boa,
se você está fofa e sorridente ao lado de sua amada família,
quando você, sorrateira e baixa, se esconde nas sombras
e vive uma segunda fornada de hipocrisia envolta em carne e suor.
Sorrindo a cara lavada da escrotidão contida.

Tudo e nada é a mesma coisa em sua vil virtude desvirtuada.
Só há você, e, até mesmo isso você tortura.

Ah, mas não se preocupe.
Esses valores são tão ultrapassados!
Os tempos mudaram, meu amigo. Não existe romantismo.
Utopia é para os ingênuos, despreparados.
O que vale é o agora, é o saldo, é a sensação.
O tempo é um conta gotas maldito, ampulheta que amputa e expurga.
Quando o hoje virar amanhã, eu me viro.
Deixa pra depois.
Sei lá, tanto faz.

Foda-se.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Brzl

Em casa, mas no direction home. Vendo e ouvindo Bob e suas histórias. Allen passou e deu oi. Parei tudo e fui escrever.

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Brasil...ô Brasil!
Para com isso, já cansou.
Não quero mais viver de migalhas.
Não quero mais viver para impostos,
impostores,
empostados.
Empossados por nós mesmos.
Pobres coitados!

Cansei do medo de sair na rua,
cansei das bundas forçadas,
das celebridades,
peladas,
desnudas de tudo, menos de olhares,
dos olhos de quem não se cansa de ver o mundo passar
e passam juntos com a boiada.

Não suporto te ver em mãos vermelhas, azuis, brancas, verdes e amarelas,
e caminhar sempre para um futuro mais negro.
País do futuro. Sei...

Perco a esperança quando te leio nos jornais,
e, principalmente, quando vejo sua foto estampada com tarja preta na cara,
iniciais e multidão revoltada,
tudo fachada para esconder a verdadeira bocada,
suja e mal lavada,
com bafo de morte,
da carne do Zé ninguém, mastigada.

Por mais que eu creia na beleza que passa e na onda que molha meus pés,
não dou risada.

Subo ao topo do pico da neblina e não vejo nada,
só escuto.
Puto da vida em saber que ali não é mais alto do que da pilha de papel do planalto,
Everest burocrático que entrava e escamoteia,
escraviza bolsos e derruba bolsas,
e solta balões em junho para fazer queimadas.

Nos comerciais, vejo a vida passando de canal em canal,
E nenhuma novidade.
Se bem que preciso mesmo de um tênis novo.
E um emprego.

Alguém tem que pagar as contas,
e apagar a luz.
Mas vou deixar a água correndo,
e mergulhar no ralo do chuveiro para ir nadando até o esgoto,
e, com a merda,
boiar até o Oceano Atlântico.

Quem sabe assim me vejo livre de você, Brasil,
ou talvez seja melhor você nos descartar.
Sim, nós, os carcamanos do fascismo cara-de-pau burguês reacionário.
Ou qualquer blábláblá que acalme minha consciência.

Gottra drink, man.
Tô saindo fora.

#Querumchopp?

Melhor assim.

Fóloumí que tánaboa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Poetas perdidos

Uma geração inteira de poetas perdidos.
Estraçalhados em baias,
aprisionados em ilhas
e cegos por planilhas.
Vivendo softwares,
em piloto automático.
Pensando em cifras,
nada musicais,
por necessidade.
São os tempos, eu sei.
Não se luta contra a evolução.
Mas se evolui também.
E a repressão do poeta não é crescimento, é adequação.
Isso não.

E seguem as hordas,
esbravejando em celulares,
andando aos pares,
em milhares,
em bares e embates,
baladas baratas para esquecer a verdade.
Triste verdade da condição humana,
o poeta contra a própria natureza.
Replicando a criação já criada,
e aquivando a criação malcriada.
Se fazendo de ferramenta, alimentando um sistema,
sendo necessário, e necessariamente remunerado.
Esse é o jogo, eu sei.
Mas joga-se também, toma-se o controle.

Aliás...controle, necessário.
Ilusões,
disso, os poetas entendem.
E por que se cegam diante delas?
Não é a paixão inventada,
é o esconderijo seguro.
Abrigo amigo que me impede de ser quem eu tenho medo de ser.
Sem saber que já sou.

O mundo não precisa de mais um apertador de botão.
E se precisar, deixe para outro.
A liberdade da poesia é para poucos.
(E já somos muitos, esses subutilizados poucos)
A criatividade de verdade, e não a da publicidade que vende obediência (sem maldade),
o poder de fazer nascer, do nada, tudo.
Um mundo em trasnformação no confronto entre a matéria-prima mundana e o pensamento revirante,
revoltado e revoltante.

O instante que aprisionamos na mente e libertamos em palavras.

O grito, em cada micronésimo de decibel da dissonância das cordas vocais em vibração;

O olhar, em cada partícula de poeira que se esconde no invisível do ar, porém, é testemunha de tudo aquilo que a alma pode dizer na força dos olhos;

O beijo, e cada molécula da água da saliva que já percorreu rios e oceanos, já foi ar, já foi terra, já foi sangue e já fez história, e hoje está entre você e quem você ama - para depois transitar para o imponderável.

A poesia é para quem é poesia.
Palavra em movimento.

E você teima em se esconder de você.
Gato e rato convivendo em um sótão escuro, cheio de riquezas,
abandonado.
E senta de novo em seu computador.
"Pela necessidade".
Fuga, meu irmão, é fuga.
O mundo é teu, e você não toma posse.
Não quer? Foda-se.
Fica aí na sua mesinha.
Vá comprar móveis novos para preencher o vazio lotado da sua sala de estar.
Engula um sanduba e não mate de vez a sua fome dolorida pela vida em estado de morte.
Vá rodar redemoinhos e aspirar por furacões, e se satisfazer na brisa.
Levante-se agora e vá lá fazer nada pra alguém, em troca de alguma coisa, dando muito para quem te manda e ganhando pouco para quem rala.
Entra na roda que tá tudo certo. Vai melhorar, sim.
Se acalme, tome um rivotril e durma com os anjos.
Amanhã tem trabalho.

Acorde e vá.
Pegue o ônibus e salte.
Caminhe, bata o crachá.
Pegue um café e senta.
Eficiência. Metas. Branding. Brainstorming. Benchmarking.
On demand. Just in Time.
Lassez-faire. Mais-valia.
Respira e vai pra casa.
Crachá, rua.
Pegue o ônibus e salte.
Casa, enfim.
Beijo de boa noite.
"Boa noite".
Boa sorte! Boa morte!
Viva bem assim,
seja feliz, é o que vale!

Mas, lá no fundo,
no nanossegundo entre o sono e a consciência,
na inocência dos desejos,
na inconfidência dos rascunhos escondidos,
poetas.
Não se renegue.
Seja.